
A influência da alimentação dos pais sobre o comportamento alimentar dos filhos
O que eu sempre digo aos pais: seu filho aprende mais observando você do que ouvindo o que você fala
Quando uma família chega até mim preocupada porque a criança não come frutas, verduras ou legumes, uma das primeiras coisas que observo é a alimentação de toda a família.
Muitas vezes, os pais me dizem:
“Meu filho não come nenhum vegetal.”
Mas, quando começamos a conversar, descobrimos que os próprios adultos da casa também não têm o hábito de comer vegetais.
Outras vezes, os pais querem que a criança beba água, enquanto eles passam o dia consumindo refrigerantes. Querem que o filho deixe o celular na hora das refeições, mas fazem as próprias refeições olhando para a tela.
E é nesse momento que eu costumo fazer uma reflexão importante:
Como ensinar uma criança a gostar de algo que ela nunca vê as pessoas que admira fazendo?
Os pais são os primeiros educadores alimentares dos filhos. A criança aprende sobre comida muito antes de entender o que são calorias, vitaminas ou nutrientes. Ela aprende observando.
Observa o que os pais colocam no prato. Observa o que recusam. Observa o que comem quando estão felizes, cansados ou ansiosos. Observa como os adultos falam sobre o próprio corpo e sobre determinados alimentos.
E, aos poucos, tudo isso ajuda a construir a relação da criança com a alimentação.
As crianças aprendem pelo exemplo
A infância é uma fase de intensa aprendizagem por observação.
Por isso, não adianta apenas dizer:
“Você precisa comer brócolis.”
Se a criança nunca vê ninguém da família comendo brócolis, será mais difícil despertar o interesse por esse alimento.
Também não é possível esperar que ela escolha uma fruta quando o adulto sempre escolhe biscoitos e salgadinhos.
As crianças observam muito mais do que imaginamos.
Quando um pai ou uma mãe diz que determinado alimento é ruim, nojento ou sem graça, a criança recebe essa mensagem. Por outro lado, quando vê os adultos comendo uma variedade de alimentos de forma natural e prazerosa, ela percebe que aquele alimento também pode fazer parte da rotina.
Isso não significa que os pais precisam ter uma alimentação perfeita.
Eu sempre reforço que o objetivo não é ser uma família perfeita. Não é necessário que os pais nunca comam um doce ou um alimento ultraprocessado.
O objetivo é construir uma rotina em que os alimentos mais nutritivos estejam presentes na maior parte do tempo.
A criança não precisa de pais perfeitos.
Ela precisa de bons exemplos repetidos todos os dias.

Fonte da imagem: Acervo pessoal
A influência da alimentação começa antes mesmo do nascimento
A relação da criança com a alimentação começa muito antes de ela se sentar à mesa e escolher o que vai comer.
Durante a gestação, a alimentação materna e a exposição aos diferentes sabores fazem parte do ambiente alimentar inicial da criança.
Após o nascimento, a alimentação da família continua exercendo grande influência sobre o desenvolvimento das preferências alimentares.
A criança cresce observando quais alimentos entram na casa, o que está disponível na geladeira, quais preparações são feitas e quais são os hábitos da família.
Se uma criança cresce em uma casa onde existem frutas, verduras, feijão e refeições preparadas em família, esses alimentos tendem a fazer parte do seu ambiente alimentar desde cedo.
Por outro lado, quando a rotina é baseada principalmente em alimentos ultraprocessados, a criança também passa a considerar esses alimentos como parte natural do seu dia.
Isso não significa que uma criança terá exatamente os mesmos hábitos dos pais.
Cada criança tem suas próprias características e preferências.
Mas o ambiente alimentar da família exerce uma influência muito importante.

Fonte da imagem: Acervo pessoal
O ambiente da casa ensina a criança o que é normal comer
Eu gosto de explicar para os pais que as crianças não aprendem sobre alimentação apenas durante as refeições.
Elas aprendem também observando:
- o que os pais compram no supermercado;
- quais alimentos ficam disponíveis em casa;
- o que os adultos comem nos intervalos;
- como a família organiza as refeições;
- quais alimentos são oferecidos com frequência;
- como os pais reagem quando a criança recusa algo;
- como os adultos falam sobre comida e sobre o próprio corpo.
Por isso, se quero que uma criança tenha mais contato com frutas e vegetais, preciso pensar se esses alimentos realmente estão presentes na rotina da família.
Não adianta comprar uma única vez e desistir porque a criança recusou.
A aceitação de novos alimentos pode levar tempo.
A criança precisa ver, tocar, cheirar e ter oportunidades de experimentar.
E, muitas vezes, precisa também ver os adultos comendo.

Fonte da Imagem: Acervo pessoal
Falar é importante, mas o exemplo é ainda mais poderoso
Os pais costumam se preocupar muito com aquilo que dizem aos filhos:
“Coma a salada.”
“Beba água.”
“Pare de comer doces.”
Mas também é importante observar o que a criança vê.
Se eu quero que meu filho beba mais água, preciso mostrar que eu também bebo água.
Se quero que ele se sente à mesa, preciso criar momentos em que a família também se senta para comer.
Se quero que ele experimente novos alimentos, preciso demonstrar curiosidade e abertura para experimentar coisas diferentes.
O exemplo não significa obrigar a criança a copiar os pais.
Significa criar um ambiente em que os comportamentos que desejamos ensinar sejam visíveis.
Uma criança aprende muito mais facilmente quando percebe que determinado hábito faz parte naturalmente da vida da família.
O problema não é apenas o que a criança come
Quando falamos sobre comportamento alimentar infantil, é comum toda a responsabilidade ser colocada sobre a criança.
Ela é chamada de “seletiva”, “difícil para comer” ou “viciada em besteiras”.
Mas eu sempre gosto de fazer outra pergunta:
Que relação essa criança está aprendendo a construir com a comida?
A alimentação não é formada apenas pelo alimento que está no prato.
Também é formada pelo ambiente, pelas emoções, pela rotina e pelos comportamentos que a criança observa.
Quando a criança é constantemente exposta a alimentos ultraprocessados e recebe poucas oportunidades de conhecer alimentos naturais, suas preferências podem ser influenciadas por esse ambiente.
Por isso, eu não acredito que devemos colocar toda a responsabilidade sobre a criança.
Os adultos são responsáveis por organizar o ambiente alimentar.
A criança, por sua vez, aprende e desenvolve sua relação com os alimentos dentro desse ambiente.

“Mas eu não gosto de verduras. Como vou ensinar meu filho?”
Essa é uma pergunta que muitos pais poderiam fazer.
E minha resposta é simples:
Você não precisa fingir que gosta de um alimento para ensinar seu filho. Mas pode aprender junto com ele.
Talvez você também tenha crescido em uma família onde as verduras e os legumes não faziam parte da rotina.
Talvez você tenha poucas opções de alimentos que aceita.
E tudo bem.
A mudança pode começar com toda a família.
Em vez de dizer:
“Eu não gosto de legumes, mas você tem que comer.”
Que tal dizer:
“Vamos aprender juntos a experimentar mais alimentos?”
Essa mudança pode transformar a alimentação em uma experiência familiar.
Os pais não precisam esconder seus desafios.
Podem mostrar que experimentar novos alimentos também é algo que os adultos fazem.
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Fonte da imagem: Acervo pessoal
Como os pais podem se tornar melhores exemplos?
Não é necessário mudar toda a alimentação da família de um dia para o outro.
Pequenas mudanças podem ser mais fáceis de manter.
1. Coma o que você deseja ensinar
Se você quer que seu filho coma mais frutas, coma frutas também.
Se quer que ele aceite vegetais, coloque vegetais no seu prato.
A criança precisa ver que aquilo não é apenas uma obrigação dela.
2. Faça refeições em família quando possível
Não precisa acontecer todos os dias.
Mas, sempre que possível, sentar-se junto à mesa ajuda a criança a observar diferentes comportamentos alimentares.
3. Não fale mal dos alimentos na frente da criança
Evite frases como:
“Isso é horrível.”
“Eu odeio salada.”
“Que comida sem graça.”
Você pode não gostar de determinado alimento sem transformar essa opinião em uma verdade para a criança.
4. Evite fazer do alimento uma recompensa
Frases como:
“Se comer tudo, ganha chocolate.”
Podem ensinar a criança que o doce é um prêmio e os outros alimentos são uma obrigação desagradável.
O objetivo deve ser ajudar a criança a desenvolver autonomia e uma relação mais tranquila com a comida.
5. Envolva seu filho no processo
Leve a criança para a feira ou supermercado.
Permita que ela ajude a lavar os alimentos e participar de algumas preparações.
Quando a criança participa, pode se sentir mais curiosa para conhecer aquilo que ajudou a escolher ou preparar.
6. Tenha paciência
A mudança de hábitos alimentares não acontece em poucos dias.
Uma criança pode precisar ter contato repetidas vezes com um alimento antes de aceitá-lo.
Continue oferecendo, mas sem pressionar.
Os pais também precisam cuidar da própria relação com a comida
Esse é um ponto que considero muito importante.
Muitas vezes, queremos mudar a alimentação da criança, mas esquecemos de olhar para a nossa própria relação com a comida.
Como você fala sobre seu corpo?
Você vive fazendo dietas?
Você chama determinados alimentos de “engordativos” ou “proibidos”?
Você sente culpa quando come?
As crianças observam essas mensagens.
Por isso, cuidar da alimentação dos filhos também pode ser uma oportunidade para toda a família refletir sobre seus próprios hábitos.
Não precisamos ensinar medo dos alimentos.
Precisamos ensinar equilíbrio.
Não precisamos ensinar que existe comida “de criança boa” e comida “de criança ruim”.
Podemos ensinar que existem alimentos para diferentes momentos e que a alimentação saudável é construída principalmente pela rotina.

Fonte da imagem: Acervo pessoal
Conclusão: seu filho está observando muito mais do que você imagina
Quando penso na alimentação infantil, uma frase sempre vem à minha mente:
O exemplo é uma das formas mais poderosas de educação alimentar.
Seu filho aprende observando você.
Ele observa o que você coloca no prato.
Observa como você fala sobre a comida.
Observa se você bebe água.
Observa se experimenta novos alimentos.
Observa se as refeições são momentos de pressão ou de convivência.
Por isso, se você deseja melhorar a alimentação do seu filho, não comece perguntando apenas:
“O que eu devo tirar do prato dele?”
Comece também perguntando:
“O que ele está aprendendo quando observa a minha alimentação?”
Você não precisa ser perfeito.
Mas precisa entender que cada pequeno hábito pode ensinar algo.
Uma fruta na mesa.
Um adulto experimentando um alimento novo.
Uma refeição compartilhada.
Uma criança participando da cozinha.
Tudo isso faz parte da educação alimentar.
A alimentação saudável da criança não começa apenas no prato dela. Muitas vezes, começa no prato de quem ela mais observa: você.
Os conteúdos deste site possuem caráter educativo e não substituem uma avaliação individualizada com profissional de saúde.
Autora: Núbia Antunes- nutricionista Infantil CRN9 12675