
Se você tem uma criança em casa que aceita bem frutas, verduras, legumes e diferentes alimentos, isso é maravilhoso!
Mas, se o seu filho tem entre 2 e 5 anos e parece ter mudado completamente de comportamento à mesa, saiba que você não está sozinha.
Como nutricionista infantil, é muito comum eu ouvir mães dizendo:
“Meu filho comia de tudo e, de repente, começou a recusar alguns alimentos.”
Ou:
“Ele fala que não gosta, mas nem experimentou!”
Essas situações podem fazer parte do desenvolvimento e da construção do comportamento alimentar infantil. Muitas crianças passam por fases em que se tornam mais resistentes a experimentar alimentos novos ou começam a recusar alimentos que antes aceitavam.
Isso não significa que você deve ignorar completamente a situação, mas também não significa que precisa entrar em desespero.
O mais importante é observar a criança e continuar oferecendo uma alimentação saudável, variada e adequada à sua fase de desenvolvimento.
Ensinar uma criança a comer bem é um processo. E, como acontece em tantos outros aprendizados da infância, exige tempo, repetição, paciência e persistência.
Neste artigo, quero esclarecer alguns dos principais mitos e verdades sobre alimentação infantil.

Mitos e verdades sobre alimentação infantil e crianças que recusam alimentos.
Por que crianças pequenas passam a recusar alimentos?
Muitas mães ficam preocupadas quando percebem que a criança que comia bem começou a dizer:
“Não gosto!”
ou:
“Não quero!”
E, em alguns momentos, ela realmente recusa um alimento sem sequer experimentá-lo.
Na faixa etária entre 2 e 5 anos, é comum que muitas crianças se tornem mais cautelosas em relação aos alimentos desconhecidos. Elas podem preferir aquilo que já conhecem e demonstrar resistência a novidades.
Também é importante lembrar que a criança está descobrindo sua autonomia.
Ela começa a perceber que pode dizer “não”, escolher e demonstrar suas preferências.
Por isso, a recusa de um alimento não significa necessariamente que ele nunca será aceito.
Meu papel como nutricionista infantil é ajudar a família a compreender o que está acontecendo e encontrar estratégias para ampliar a variedade alimentar sem transformar cada refeição em uma batalha.

Criança recusando alimento durante a refeição.
Mitos e verdades sobre alimentação infantil
1. “Criança só come besteira”
MITO
Uma criança não nasce conhecendo salgadinhos, biscoitos recheados, refrigerantes e outros produtos ultraprocessados.
Na maioria das vezes, ela passa a querer esses alimentos porque teve contato com eles e percebeu que são saborosos e estão disponíveis.
Então, eu sempre gosto de fazer uma pergunta aos pais:
Se seu filho só tem acesso a “besteiras”, quem está disponibilizando esses alimentos?
Isso não significa que os pais devem se culpar.
Pelo contrário.
Muitas famílias oferecem produtos prontos porque são práticos, fazem parte da rotina e estão disponíveis em todos os lugares.
O mais importante é observar a frequência.
Uma criança não precisa consumir alimentos industrializados todos os dias simplesmente porque são fáceis de transportar ou porque possuem embalagens atrativas.
Quanto mais a alimentação da família for baseada em alimentos in natura e minimamente processados, maiores serão as oportunidades para a criança conhecer e se familiarizar com esses alimentos.
2. “Comida para criança precisa ter embalagem colorida”
MITO
Como nutricionista infantil, eu sempre alerto as famílias para não confundirem marketing infantil com alimentação adequada.
A indústria sabe que crianças gostam de personagens, cores e embalagens chamativas.
Por isso, muitos produtos são criados especificamente para chamar a atenção dos pequenos e convencer os adultos de que aquele alimento foi feito especialmente para eles.
Mas uma embalagem colorida não transforma automaticamente um alimento em uma boa escolha.
Na verdade, muitos dos alimentos que podem fazer parte de uma alimentação saudável não possuem embalagem:
- Banana;
- Maçã;
- Mamão;
- Cenoura;
- Milho;
- Batata;
- Feijão;
- Ovo;
- Abóbora.
Alimento para criança não precisa ter desenho, personagem ou embalagem especial.
A comida da criança pode, e deve, ser parecida com a comida da família, respeitando a idade e as necessidades individuais.

Alimentos naturais para crianças não precisam de embalagens coloridas.
3. “Comida para criança precisa ser elaborada”
MITO
Você não precisa ser chef de cozinha para alimentar bem seu filho.
Muitas mães acreditam que precisam preparar receitas diferentes e elaboradas todos os dias.
Mas uma alimentação saudável pode ser muito simples.
Arroz.
Feijão.
Ovo.
Frango.
Frutas.
Legumes.
Verduras.
Preparações simples e alimentos apresentados de maneira reconhecível também podem ajudar a criança a conhecer aquilo que está comendo.
Uma criança pode aprender que uma cenoura é uma cenoura quando ela consegue ver, tocar e reconhecer o alimento.
Por isso, não é necessário esconder todos os vegetais ou transformar cada refeição em uma receita elaborada.
Quanto mais simples e possível for a alimentação da sua família, maiores serão as chances de esse hábito ser mantido.
4. “Toda criança é ruim para comer”
MITO
Essa é uma frase que escuto muito.
Mas será que toda criança que não come tudo é realmente “ruim para comer”?
Muitas vezes, a criança aceita vários alimentos, mas recusa alguns vegetais.
Em outros casos, ela come uma quantidade menor do que os adultos gostariam.
E isso, sozinho, não significa que exista necessariamente um problema alimentar.
Cada criança tem:
- Preferências;
- Apetite;
- Ritmo;
- Necessidades individuais;
- Experiências diferentes com os alimentos.
Não devemos esperar que a criança coma todos os alimentos disponíveis ou grandes quantidades em todas as refeições.
Mas também é importante observar quando existe uma dificuldade significativa.
Quando a criança aceita um número muito pequeno de alimentos, demonstra grande sofrimento diante de determinados alimentos ou a alimentação está afetando sua saúde e rotina familiar, pode ser necessário procurar acompanhamento profissional.
5. “Criança precisa de uma alimentação variada”
VERDADE
Quanto maior a variedade de alimentos oferecidos ao longo da infância, maiores são as oportunidades para a criança ter contato com diferentes nutrientes, sabores, aromas e texturas.
Uma alimentação infantil saudável não significa que a criança precisa comer todos os alimentos existentes.
O objetivo é oferecer variedade e permitir que ela tenha oportunidades para aprender.
Por exemplo:
Hoje, você pode oferecer banana.
Em outro dia, mamão.
Depois, maçã.
Na próxima semana, outra fruta.
A mesma lógica pode ser utilizada para legumes, verduras e outras preparações.
Variedade não significa perfeição. Significa oportunidade de conhecer.

Fonte da imagem: Acervo pessoal
Alimentação infantil variada com frutas, legumes e alimentos saudáveis.
6. “Criança precisa comer doce para ser feliz”
MITO
Muitos adultos associam alimentos doces a momentos especiais e felicidade.
Mas a criança não precisa receber um doce para viver momentos felizes.
Podemos criar memórias afetivas através de:
- Brincadeiras;
- Passeios;
- Histórias;
- Piqueniques;
- Momentos em família;
- Música;
- Abraços;
- Conversas.
Isso não significa que um doce nunca poderá fazer parte da alimentação.
O problema é quando a comida passa a ser utilizada constantemente como recompensa, prêmio ou principal fonte de conforto.
Por exemplo:
“Se você se comportar, ganha um doce.”
“Se comer tudo, ganha sobremesa.”
Essas estratégias podem fazer com que alguns alimentos sejam vistos como um prêmio, enquanto outros passam a ser considerados uma obrigação.
Uma relação saudável com a comida vai muito além de simplesmente proibir ou liberar determinados alimentos.
7. “É melhor oferecer a fruta do que o suco”
VERDADE
Quando a criança consome a fruta inteira, ela tem contato com diferentes características daquele alimento.
Ela vê.
Toca.
Sente o cheiro.
Mastiga.
Percebe diferentes texturas.
Além disso, a fruta inteira preserva as fibras presentes no alimento.
A mastigação também faz parte do desenvolvimento das habilidades orais.
Por isso, sempre que possível, é interessante priorizar a fruta inteira.
Isso não significa que um suco natural nunca possa ser consumido.
Mas ele não precisa substituir o consumo da fruta.
Outro ponto importante é evitar adicionar açúcar desnecessariamente.
Muitas frutas já possuem sabor naturalmente adocicado.

Fonte da imagem: Acervo pessoal
Fruta inteira e suco na alimentação infantil.
8. “O leite materno é o melhor alimento para o bebê nos primeiros seis meses”
VERDADE
O leite materno é considerado o alimento mais adequado para o bebê nos primeiros meses de vida.
A recomendação de saúde é que, quando possível, o bebê seja alimentado exclusivamente com leite materno até os seis meses de idade.
O leite materno oferece nutrientes importantes e se adapta às necessidades do bebê.
Além dos benefícios nutricionais, a amamentação também envolve contato e interação entre mãe e bebê.
A partir dos seis meses, quando o bebê está preparado para iniciar a alimentação complementar, novos alimentos começam a ser introduzidos de maneira gradual, enquanto o aleitamento materno pode continuar.
Em situações em que a amamentação não é possível ou não ocorre, a alimentação do bebê deve receber orientação individualizada de profissionais de saúde.

Fonte da imagem: Acrevo pessoal
Importância do aleitamento materno na alimentação do bebê.
O mais importante não é fazer seu filho comer tudo
Se você chegou até aqui, quero que guarde esta mensagem:
O objetivo não é obrigar seu filho a comer tudo.
O objetivo é criar oportunidades para que ele conheça diferentes alimentos.
Uma criança pode precisar de tempo para aceitar algo novo.
Por isso:
- Continue oferecendo;
- Não force;
- Evite transformar a refeição em uma batalha;
- Respeite os sinais de fome e saciedade;
- Ofereça variedade;
- Seja exemplo;
- Evite desistir logo após uma recusa.
Educar o paladar é um processo.
Assim como a criança precisa de tempo para aprender a andar, falar e desenvolver outras habilidades, ela também pode precisar de tempo para aprender a conhecer e aceitar novos alimentos.
Quando a recusa alimentar precisa de mais atenção?
Embora algumas recusas sejam comuns durante o desenvolvimento, existem situações em que é importante procurar avaliação profissional.
Procure uma nutricionista infantil ou converse com o pediatra se seu filho:
- Aceita uma variedade muito limitada de alimentos;
- Demonstra grande sofrimento durante as refeições;
- Tem dificuldade persistente para mastigar ou engolir;
- Apresenta alterações importantes de crescimento;
- Possui suspeita de deficiências nutricionais;
- Recusa grupos alimentares inteiros;
- Tem dificuldades alimentares que estão afetando a rotina e a vida social da família.
Cada criança deve ser avaliada individualmente.
Meu papel como nutricionista infantil
Como nutricionista infantil, eu não quero transformar a alimentação da sua família em uma lista enorme de regras.
Também não quero que você se sinta culpada porque seu filho recusou uma verdura ou porque comeu um alimento industrializado.
Meu objetivo é ajudar você a entender o comportamento alimentar do seu filho e encontrar estratégias práticas para melhorar a alimentação.
Porque uma alimentação saudável não é construída em um único dia.
Ela é construída ao longo da infância.
Com repetição. Com paciência. Com exemplo. E sem perfeição.
Quer ajuda para melhorar a alimentação do seu filho?
Se você está enfrentando dificuldades com a alimentação do seu filho, não sabe mais como lidar com a recusa de alimentos ou deseja ensinar seu pequeno a comer de maneira mais saudável, procure orientação individualizada.
Cada criança tem sua própria história. E entender essa história é o primeiro passo para construir uma relação mais tranquila com a comida.
Os conteúdos deste site possuem caráter educativo e não substituem uma avaliação individualizada com profissional de saúde.
Autora: Núbia Antunes- nutricionista Infantil CRN9 12675